terça-feira, 16 de março de 2010

Sete tique taques


Tique taque. Ela estava sentada em sua cadeira de balanço, com um quadro na mão, mas não qualquer quadro. Tique Taque. Eram cinco horas, nada. Tique Taque. Um Turbilhão de pensamentos e memórias a cada minuto invadia sua cabeça. A cada lembrança, um sorriso. Ela era uma mulher muito sorridente e gentil, sempre fora assim. De Repente, ouviu-se uma campainha. O seu sorriso aumentou, a sua família havia chegado. Era seu aniversário.


Olhou no relógio novamente, seis e meia. Tique taque. Levantou-se animada e falou sua frase costumeira: "Já vai, um segundo que vou acordar Emanuel!" Calçou suas pantufas e foi acordar o velho preguiçoso.

Encontrou-o já de pé, com pijama retorcido e coçando seu sovaco, deu mais um sorriso e foi atender a porta. A casa era tão antiga, quanto grande. Tudo era muito bonito, cheio de ostentação, mas a parte favorita dela era o jardim.



- Oi Mamãe! Que saudades!



-Meus filhotes! Como estão meus maiores troféus?



A família era grande, quase vinte pessoas só de filhos, netos e marido, por isso, levava-se um bom tempo para que todos se cumprimentassem



O jardim estava todo decorado para a festa, com azul e amarelo, as cores preferidas dela. O aniversário dela era no verão, sol até as oito da noite.

Fora um jantar muito animado, com bate-papo, risadas... Mesmo em seus setenta anos, ela tinha energia para dar e vender. Jogou futebol com os netinhos, brincou de esconde-esconde e contou para Clarice a história de sua batalha no voleibol, suas vitórias, como tudo começou... Clarice tinha oito anos, e mesmo sem a avó admitir, era a sua neta favorita. Tique taque.



"Eu me lembro como se fosse ontem: Tudo começou quando eu tinha quase a sua idade, apenas um ano mais nova. Meus pais, sempre que podiam me levavam para assistir jogos de vôlei, e eu adorava! Era difícil naquela época, nós éramos pobres, sabia? Lembro-me até hoje: O meu aniversário de sete anos foi o melhor de toda a minha vida. Eu ganhei uma bola de vôlei, a minha primeira bola. Fiquei encantada, tinha amado o presente. Mas eu sabia que não estávamos passando por uma situação muito boa naquela época. Perguntei a ele: Ô pai, não foi caro comprar essa bola pra mim? Não precisava... Então ele me disse as palavras mais bonitas e a maior verdade do mundo: Minha filha, se você tem um sonho, não importa o resto: Vá atrás dele que o resto irá até você. E assim comecei a treinar, e é por causa dessas palavras que tenho todas aquelas medalhas nos quadros na sala."



Clarice perdeu a conta de quantas vezes quis ouvir essa história. Quando a aniversariante olhou no relógio, eram dez pras oito. Então disse: "É melhor acelerarmos gente! Oito horas!" Então foram todos para a mesa, cantar parabéns. Quando um dos filhos foi acender as velas do bolo, Clarice fala: "Espera, espera!", correndo em direção ao bolo. Chegou arfando, e tirou do bolo a vela de número zero, deixando apenas a vela de número sete. Clarice queria fazer tão especial esse aniversário pra avó, como o de sete anos havia sido. Ninguém havia entendido, apenas a avó, que estava com um sorriso no rosto, mas não um sorriso qualquer, aquele sorriso era especial. Na hora de apagar a vela, apenas uma lágrima no rosto, de felicidade. 


Tique taque, tique taque. Dessa vez, o tempo andou para trás.

Nenhum comentário:

Postar um comentário